Siria, 1930–
Adonis (Ali Ahmad Said Esber) nació el 1 de enero de 1930 en Qassabin, cerca de Latakia, Siria. Creció en un entorno rural y recibió su primera formación de manera autodidacta antes de acceder a estudios formales.
Estudió Filosofía en la Universidad de Damasco. En la década de 1950 se trasladó al Líbano, donde participó activamente en la vida cultural de Beirut.
Fue cofundador de la revista literaria Shi’r, que desempeñó un papel importante en la renovación de la poesía árabe contemporánea. Posteriormente dirigió la revista Mawaqif.
Su obra poética incluye títulos como Canciones de Mihyar el de Damasco (1961), Libro de las huidas y las migraciones en las regiones del día y de la noche (1965) y El libro (1995).
Además de poesía, ha publicado ensayos sobre literatura y cultura árabe, entre ellos Poesía y poética árabe y El tiempo de la poesía.
Reside en París desde la década de 1980. Su obra ha sido traducida a múltiples lenguas y ha recibido numerosos reconocimientos internacionales.

A MÃO DA NUVEM
Ao voltar de viagem, acordei ontem, perturbado.
Sonhava –
no meu sonho vi que a luz subia como uma
planta cujo nome ignoro mas que se assemelha ao girassol.
Passaram pelo sonho
numerosas cidades, sem casa,
numerosas casas, sem quarto,
numerosos quartos, sem cama,
numerosas camas sem sono.
2
Como é voluptuoso ver no ar
desfazerem-se os botões de uma rosa
à luz da madrugada,
quando ela ainda mal desperta!
3
Através das frestas na porta e nas janelas do meu quarto
vem o ritmo dos passos, nem os do dia, nem os da noite.
São os passos de uma mulher eternamente vagabunda
que nunca envelhece, não repousa, não dorme.
O seu nome é o vento.
4
Não consegui ainda
convencer o tempo
a associar-se a mim para lançar o seu dado verde.
5
Aqui, onde agora habito,
o vazio não pára de se queixar.
Não arranja nada para fazer
e não tem casa.
6
Sei que o meu tom, por vezes,
é um tom de celebração,
mas é uma celebração votada ao vento.
Isto porque o que ele nos envia
é só as missivas da dúvida
e os mensageiros da certeza.
7
Ouço em viagem vozes estranhas.
Só as pode guardar um museu destinado
à infância da palavra.
8
A viagem ensinou-me
a ler o tempo
traçado pela mão da nuvem.
9
Onde encontrar o elixir
que ande sempre ao meu lado,
que venha sempre de uma outra época?
10
Ontem, a noite veio a pé para me visitar,
como se se recusasse a apanhar o mesmo comboio
que as estrelas.
11
Amadurece-me, ó sol.
Colhe-me, ó noite.
12
Nenhuma protecção para a viagem pelo frio deste mundo
além da linguagem,
mas a linguagem é um pano cheio de buracos.
13
As margens aceitaram
ser uma casa para as ondas,
porque as próprias ondas são
um cais de partida para as margens.
14
Irá o viajante que há em ti encontrar enfim
aquele que em ti reside?
Ficará então a viagem a ser
uma onda de palavras
vindo quebrar-se nas tuas entranhas
contra o rochedo do sentido?
15
O mundo não deixa de ser uma criança.
Levanta-te e deita-o no seu leito,
ó amanhã.
MÚSICA I
5
Era o verão. Disseste:
«Borboleta» quando paraste,
e te voltaste para mim
caminhámos
e a rua tinha um rasto de janelas.
A morada sai da sua argila
erra pelas pradarias. Encontrámos
o que designava os seus segredos. Murmurámos:
«esta é a língua revelada que faz com que Nefertite
caia da sua eternidade» e dissemos:
«que há de mais amado Sherazade
do que a língua crepuscular do nosso verão?»
(Sherazade
apenas canta as feridas que lhe oprimem o peito,
e assim se distrai com os dados dos seus prazeres.)
Era verão, quando nos separámos.
13
A terra abriu o seu vestido e andou
liberta nos nossos passos
ó terra, dissemos quando ela nos interrogou:
conhecemos o amor. Amassámos o seu barro
com o vento das nossas poeiras
amassámos os nossos sofrimentos
com as belezas de uma lua errante
e desenhámos
em nós o que é visível nos seus traços.
Tal é a nossa terra –
prevemos que o amor se apaixonará pelos seus nomes
tal como os registaram
as suas efemérides.
26
Abro a porta ao vento
e ele visita os desenhos pendurados
aflora os seus contornos
depois boceja e parte de costas curvadas.
O nosso amor não estava ali, os seus espectros
levaram tudo o que tinham desenhado sobre
a cama, as almofadas, o fecho da porta
no seu cadeado antes de desaparecer.
Imaginação minha apenas? No entanto
uma nuvem veio confirmar tudo
a nuvem que acabou de passar.
Nenhum vento de passagem ninguém
para dizer a estes desenhos
como contar as lendas
como escrever a história destas nuvens.
38
Disse ao amor:
estou pronto a fazer o que quiseres;
chamar ao meu presente futuro
que renega o tempo da memória.
Levantei-me com a alvorada.
Andámos e perguntámos:
como será o dia?
Penetrei na camada da terra. Ouvi
e contemplei do seu interior:
o rosto da natureza
o rosto da cidade
a luz
o sol
a noite
os cumes as pradarias as sementes as colheitas
as fontes e as ervas
as palavras que se enfeitam
tudo isto
sai da matriz da memória.
Traducción: Nuno Júdice