Carlos Drummond de Andrade

Â
En Cinelândia por la tarde,
entre amigos y bancos vulgares
se sientan unos hombres mal vestidos.
No tienen prisa de volver
a casa o al trabajo.
Se sientan en honor a una vida
que emerge dentro de sus vidas
corrientes, pardas y tristes,
y se quedan ahà para ver a las palomas
alrededor de la estatua de Floriano
buscando maÃz, repartido
por un dios amigo de las aves,
el dios que al no bajar a
prefirió el simple disfraz
de empleado público.
Pican las palomas, revolotean
por entre el mármol del Teatro,
del Museo y de
Y no es que les interese la opera,
los libros, los cuadros, las bellas artes.
Juegan las palomas: lápiz, color,
relampagueo entre los árboles, tranquilo
ser y estar, contrario al trágico
mundo que se fue modelando
entre gritos, tartamudeos, gruñidos,
lágrimas, cóleras, solercias,
a costa del mundo esencial.
Liberados de todo peso,
se dejan estar los hombres
desprevenidos junto a las palomas.
Silenciosos y circunspectos,
son tal vez los mejores hombres
de nuestro tiempo asà desocupados.
No se disputan bienes o poderes
más que el bien y el poder de un banco
construido sobre un piso de piedras.
No transportan guerras en el alma,
no venden odio, no embaucan
ni especulan en quien tiene la razón
entre las sin razones de este instante.
El vuelo no viajero les basta
como alimento de las retinas
y al mirar a las palomas, perciben
una armonÃa que perdimos.
En Cinelândia, aves y hombres
redescubren en vida, la paz.Â

Â
Traducción: Nidia Hernández
Â
Â
Na cinelândia, pela tarde,
em bancos vulgares e amigos,
sentam-se homens mal vestidos.
Não mostram pressa de voltar
para casa ou para o trabalho.
Sentam-se em honra de uma vida
que vige dentro de suas vidas
corriqueiras, pardas e tristes,
e lá ficam a ver as pombas
em torno à estátua de Floriano
catando milho distribuÃdo
por um deus amigo das aves,
o deus que no baixar à Terra
preferiu o simples disfarce
de empregado administrativo.
Bicam as pombas, esvoaçam
por entre mármores do Teatro,
do Museu e da Biblioteca.
Não que lhe interessem óperas,
livros, telas, artes humanas.
Brincam as pombas: pena, cor,
lampejo entre árvores, tranquilo
ser-existir infenso ao trágico
mundo que se foi modelando
entre gritos, gagos, regougos,
lágrimas, cóleras, solércias,
à custa do mundo essencial.
Libertados de todo peso,
deixam-se os homens existir
desprevenidos junto às pombas.
Silenciosos e circunspectos,
são talvez homens melhores
do nosso tempo assim parados.
Não pleiteiam bens ou poderes
mais que o bem e o poder de um banco
alteado no chão de pedrinhas.
Não transportam a guerra n'alma,
não vendem ódio, não tocaiam
nem sofismam quem tem razão
entre sem razões deste instante.
O voo não viajeiro basta-lhes
para alimento das retinas
e, ao mirar as pombas, remiram
uma harmonia que perdemos.
Na Cinelândia, aves e homens
redescobrem a paz, em vida.

Carta Astral de: Carlos Drummond de Andrade

